Pobreza e Violência: o Filme da Vida Real
- 18 de nov. de 2016
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O documentário é um gênero cinematográfico reflexivo que se relaciona ao compromisso do jornalismo com a realidade.

Sob a direção de Eduardo Coutinho, em fevereiro de 1964 inicia-se a produção de Cabra Marcado Para Morrer (Brasil, 1984), que contaria a história política do líder da liga camponesa de Sapé (Paraíba), João Pedro Teixeira, assassinado em 1962. Dezessete anos depois, Coutinho volta à região e reencontra a viúva de João Pedro, Elisabeth Teixeira, que até então vivia na clandestinidade e outros camponeses que haviam atuado no filme antes de ser brutalmente interrompido. Considerado um dos maiores documentaristas do Brasil, o paulistano Coutinho é ganhador do Kikito de Cristal, principal premiação do cinema nacional, pelo conjunto da obra. Entre seus principais filmes estão Edifício Master, Jogo de cena, Babilônia 2000 e Cabra Marcado para Morrer.
O documentário Tiros em Columbine (EUA, 2002) é uma referência ao massacre em que dois adolescentes (Dylan e Eric) mataram 14 estudantes e um professor na Columbine High School em 1999. O diretor e protagonista, Michael Moore começa a sua obra com a pergunta: afinal a culpa é de quem? Alguns acusam músicos como Marilyn Manson. Seriam os filmes? A televisão? Os videogames? Ou a cultura do medo que o EUA instituíra a fim de incentivar o consumo de armas? Ator, diretor e produtor, o americano Moore também dirigiu documentários como Capitalismo - Uma História de Amor (2009), Fahrenheit 11 de Setembro (2004), dentre outros.
Pobreza, locura e sabedoria caracterizam o filme Estamira (Brasil, 2004). Trabalhando em um aterro sanitário, situado em Jardim Gramacho, no Rio de Janeiro, Estamira Gomes de Sousa é uma mulher de 63 anos, que sofre de distúrbios mentais. Num misto de locura e sobriedade, Estamira analisa questões de interesse global, fala também com uma lucidez impressionante e permite que o espectador possa repensar a loucura de cada um, inclusive a dela. Foi com Estamira, que o fotógrafo carioca Marcos Prado estreou como diretor, o qual, obteve 25 prêmios em festivais nacionais e internacionais. Sócio do cineasta carioca José Padilha na produtora Zazen, Prado já havia produzido os filmes Carvoeiros (2000), de Nigel Noble, e o premiado Ônibus 174 (2002), de Padilha.
Os documentários em questão apresentam uma realidade comum de pobreza e violência, alguns traços semelhantes e outros diferentes em questões técnicas e estéticas do processo fílmico das obras. Nos dois brasileiros, Estamira e Cabra Marcado para Morrer, a pobreza aparece nua e crua na vida dos personagens reais da história. No Caso de Estamira a violência se apresenta sob forma de descaso social, levando-nos a perguntarmos sobre o que levaria um ser humano a fazer do depósito de lixo a sua morada?
A injustiça social e a indiferença pública para com os pobres no país são visíveis nas imagens sangrentas de camponeses mortos, tanto na Paraíba como nos redemoinhos de lixo do Gramacho no Rio de Janeiro. Já em Tiros em Columbine a pobreza tem a cara do medo que é gerado pela violência institucionalizada nos EUA, o que sustenta e incentiva o consumo de armas sob a conhecida prerrogativa de que, a melhor defesa é o ataque, paradoxalmente associada à insegurança nacional como afirma Marcela Calil Cayres (internet).
Sobre os aspectos técnicos e estéticos, os três documentaristas fazem jus ao conceito de documentário como gênero cinematográfico. Exploram a realidade e representam-na o mais fielmente possível, marcam presença em todo o processo fílmico captando imagens impactantes. Os documentaristas brasileiros dão o protagonismo aos personagens reais que, de maneira natural, atuam no filme da própria vida e a história é contada sem roteiros pré-definidos. Michael Moore, por sua vez, se coloca como protagonista e por meio de entrevistas interfere efetivamente no com freqüência no processo. A interferência em Coutinho e Prado é sutil e discreta. Marcos Prado em Estamira difere de Coutinho por não usar microfones e por usar os sons naturais do vento, chuva, tempestades como trilha sonora.
Para Fernão Pessoa (internet), o documentário se caracteriza pela exploração da realidade e pelo relato de idéias. Ramos explica que, “é uma narrativa com imagens-câmera que estabelece asserções sobre o mundo na medida em que haja um espectador que receba essa narrativa como asserção sobre o mundo”. Este conceito é percebido nas produções de Estamira (Marcos Prado, Brasil, 2004), Tiros em Columbine (Michael Moore, 2002) e Cabra Marcado para Morrer (Brasil, 1984) do Diretor Eduardo Coutinho. Nestas obras cinematográficas há uma realidade comum, a pobreza sociopolítica, econômica e ética que gera a degradação do ser humano e a injustiça social.





















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