Joe Gould: Segredo, Jornalismo, Literatura e Emoção
- 2 de nov. de 2016
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Se você gosta de uma boa história, daquelas que facilmente passam despercebidas pelos olhos do senso comum, você vai se emocionar com esse personagem real descoberto por Joseph Mitchel. O texto tem alerta de spoilers de "O Segredo de Joe Gould", mas garante boas dicas para você se encantar e enveredar pelo Jornalismo Literário.

A obra O segredo de Joe Gould é composta por dois perfis sobre Gould escritos por Joseph Mitchell e publicados na revista The New Yorker. Marco do jornalismo literário, gênero explorado por Mitchell, É resultado de muita apuração, curiosidade e paixão pelas excêntricas figuras nova-iorquinas.
Joe Gould era um homem culto, inteligente e incomum. Formado em Harvard, membro de uma família tradicional e preferiu viver, boêmio, nas ruas de Nova York. Dependia da solidariedade de amigos para se alimentar e sustentar seus vícios, como o cigarro e a bebida, pedia com frequência dinheiro para o seu “Fundo Joe Gould”.
Era um homem interessante, contava histórias, ouvia e presenciava acontecimentos que para ele eram marcantes o suficiente para constituir a “História oral de nossa época”, a qual escrevia e guardava em um portfólio que carregava por onde quer que fosse. “O que as pessoas dizem é história” (GOULD, p.17), dizia Joe Gould. Perfeccionista, reescrevia inúmeras vezes o primeiro ensaio autobiográfico que compunha sua obra.
Para Mitchell, o jeito com que Joe Gould escrevia se parecia muito com o seu jeito de falar. De acordo com o autor, Gould fazia observações próprias e escrevia de forma tão direta que beirava a obscenidade (Mitchell, 2003, p. 72). O olhar humano de Joe Gould para as histórias e vivências das pessoas, reflete uma característica primordial ao jornalista, profissional de grande responsabilidade social, que deve encontrar a notícia no cotidiano de seu público, tornar conhecidas suas necessidades e suas experiências. Talvez essa característica de Gould tenha inspirado Mitchell, enquanto jornalista.
Joseph Mitchell já estava ficando cansado de ouvir Gould falar tanto e queria ler toda a História Oral, porém, chegou um momento em que os portfólios que continham a história não estavam mais disponíveis. Joe Gould dizia que havia guardado a continuação da história com uma amiga, Mitchell sugeriu que ele a procurasse, Joe disse que ela estava viajando e assim inventava sucessivas desculpas. Alguns ensaios da História Oral e alguns outros escritos de Joe Gould já haviam sido publicados pela revista Dial, mas Mitchell queria mais, seu instinto jornalístico o levava a querer descobrir a fundo do que se tratava a História Oral, quem sabe assim ele descobria mais sobre a personalidade de Gould.
Uma das desculpas de Joe Gould era dizer que sempre achou que a História Oral seria uma obra póstuma, o que divergiu do que havia dito a Mitchell anteriormente a respeito de ter levado sua obra a catorze editoras. Joseph Mitchell se indignou com as desculpas de Joe Gould e começou a crer que a História Oral não existia, para ele, tudo era parte da imaginação de Joe, que nunca passou suas ideias para o papel. Ao dizer isso, encarou seu rosto sem expressão e certificou-se de que esse era seu grande segredo.
Passada a raiva, Mitchell percebeu que não poderia deixar de se interessar por alguém, que como ele, desejava escutar o mundo. O jornalista havia passado por uma experiência parecida quando idealizou um romance que não chegou a escrever.
Com O segredo de Joe Gould, Joseph Mitchell dá uma grande lição aos jornalistas, mostra que grandes histórias podem estar por aí, despercebidas. O valor de uma apuração e a importância de se ouvir várias fontes também são explícitos no livro, já que Mitchell descobre que a História Oral não existia e ouve Joe e pessoas próximas a ele para constituir seu trabalho.
Disciplina e paciência eram palavras chave para Mitchell e devem ser para um bom jornalista. Suas técnicas de escrita ensinam como dar detalhes sem ser cansativo e mostra como prender a atenção por meio de uma expectativa em torno do desfecho da história, característica da literatura aplicada ao jornalismo, constituindo assim o jornalismo literário.





















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