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Censura ou Limite?

  • 5 de out. de 2016
  • 3 min de leitura

Dia de papo sério aqui na Antena dos Focas. Até onde se pode ir no jornalismo? O cinema te responde.

Foto: Helvécio Cardoso

A busca por uma grande reportagem e o reconhecimento das grandes investigações sempre foram o carro-chefe dessa profissão que enche os olhos de repórteres e público. Para muitos, o jornalista sempre foi o mocinho, o protagonista das descobertas incríveis e dos desfechos brilhantes. Para outros, sempre será o vilão, o tendencioso, o incômodo.


Essa controvérsia não se restringe à relação da mídia com o público. Alan J. Pakula mostrou-se um defensor da nobreza do jornalismo ao retratar os bastidores da intensa investigação do caso Watergate, que culminou na renúncia do presidente Nixon em Todos os Homens do Presidente. Billy Wilder, ex-jornalista, preferiu mostrar as manipulações da profissão, por meio de um repórter sem escrúpulos na Montanha dos Sete Abutres. Porém, não são somente escrúpulos que, por vezes, faltam aos jornalistas, limites também são questionáveis, é o que revela Joel Schumacher em O Custo da Coragem. Por sua vez, Oliver Stone expõe o envolvimento do público com a produção midiática em Talk Rádio - Verdades que Matam.


A nobreza do jornalismo baseia-se na “imagem do homem que, pela investigação, resolve as mentiras geradas pelos poderosos” (ARAÚJO, 1987), fato que fica claro em Todos os Homens do Presidente. Alan J. Pakula mostra de forma muito sutil a relação do jornalista com a censura, presente dentro e fora dos veículos de comunicação. Os repórteres do Washington Post sempre se deparavam com a figura de um editor rigoroso, que prezava pelo limite ao lidar com uma matéria arriscada. “Há 2 mil repórteres na cidade, 5 em Watergate. Desde quanto o Washington Post tem o monopólio da sabedoria? Por que os Republicanos o fariam?” (TODOS OS HOMENS DO PRESIDENTE, 1976). Limite que faltou para o editor de Verônica Guerin. Verônica, sedenta por uma grande matéria, pagou com a vida O Custo da Coragem, ao investigar o narcotráfico em Dublin. Tendo em vista esse exemplo, cabe a análise de Inácio Araújo (1987), segundo ele, é impossível lidar com essa loucura sem ser contaminado por ela, sem partilhar dela.


Mas o jornalista não é o único a ser contaminado pela notícia, o público, cada vez mais exigente, também se envolve diretamente com ela. O espectador quer ouvir do jornalista aquilo que gostaria de falar, fator importante no jornalismo opinativo, capaz de criar identificação com o público, por meio do ponto de vista do jornalista. Talk Rádio expressa esse fato na fala de Barry Champlain: “Estou aqui para guiá-los pela mata escura do seu próprio ódio, raiva e humilhação. Estou prestando um serviço público” (TALK RÁDIO: Verdades que Matam, 1988). O jornalista também não é o único a pagar com a própria vida. Vítima das manipulações do repórter Charles Tatum, Leo Minosa morre preso na mina em A Montanha dos Sete Abutres, enquanto o Tatum usa o acontecido para criar notícias e repercutir o acidente.

Diante dessas quatro obras, concluímos que o fazer jornalístico é nobre em sua essência e inegável é seu valor social. Porém, cabe ao jornalista entender que a autocensura nem sempre é algo negativo para a profissão. É preciso encontrar um equilíbrio entre a busca pela grande publicação e a integridade, entre a investigação e a segurança. O jornalista trabalha dentro de um jogo de interesses e independente dos rótulos que recebe, deve prezar pela qualidade da informação, ao direcionar o público à interpretação dos fatos, como afirma Araújo (1987): "A dúvida, eterna, sobre se narramos a verdade ou se somos, em graus variados, vítimas de uma visão. [...] Nem herói nem impostor, nem “dono” nem fraudador da verdade. Mas os dois ao mesmo tempo. [...] Cabe transformar a massa amorfa do real e dar-lhe sentido. [...] O jornalista é um angustiado leitor/produtor de sinais".


 
 
 

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